Água e Serviços Públicos
Luisa Tovar
Intervenção no Forum Internacional de Serviços Públicos, realizado em Lisboa, 18 de Março de 2005.
Versão revista para publicação no livro de comunicações do Forum, “Serviços Públicos – Motor de uma sociedade desenvolvida e democrática”, editado pela Federação dos Sindicatos da Função Pública, em Setembro de 2005, depósito legal 184905/02. documento de Reflexão do Forum (pdf) Resolução do Forum (pdf)
ÍNDICE
Serviços de abastecimento de água e recolha de águas residuais
A administração e protecção da “água da natureza”
Retrocesso e espoliação de direitos conquistados.
Contra a espoliação total da água – um combate inadiável
Quando tratamos da água estamos a falar da interacção das pessoas com a natureza, de uma ligação que é física e dinâmica.
O organismo humano precisa de ingerir água a intervalos relativamente curtos, devolve-a outra vez à natureza e precisa novamente de renová-la. Como todos os seres vivos, o homem é parte do ciclo da água, o ciclo da água processa-se através dele. A interrupção dessa ligação é fatal, significa a morte.
Essa água “em que pensamos primeiro”, a “água vital”, é uma percentagem ínfima da que usamos. A quantidade é variável, dependendo de vários factores, entre eles o esforço físico e a temperatura, mas andará à volta de 3 a 6 litros por dia, incluindo a que ingerimos nos alimentos. Somando a água necessária à higiene pessoal e doméstica, à cozinha e lavagem de roupa, o volume que circula por pessoa é bastante mais alto, aponta-se para 40 a 50 litros por dia como “o direito humano à água”, mas em muitos lugares do mundo anda entre os 5 e 25 litros por dia, e o uso médio com conforto varia entre 100 e 250 litros por pessoa por dia.
Ninguém produz água, assim como ninguém consome água. É sempre a mesma água, que existe há milhões de anos, e circula um fluxo que liga todos os seres vivos, passados presentes e futuros. Não é tanto um problema de “quanto” usa, mas de “como”, quando e onde a devolve, e em que condições.
Esta água “doméstica” é quase toda devolvida á Natureza no mesmo dia. A maior parte é devolvida na fase líquida, através do esgoto, com substâncias dissolvidas e micro-organismos que alteram a qualidade para utilização seguinte. Em geral esta “devolução” na fase líquida representa mais de 80% da água que entra em casa. A maior parte da restante evapora-se – na secagem da roupa e de outras lavagens, na preparação de alimentos, na própria transpiração - não foi “gasta”, mas não será possível utilizá-la até que caia, noutro local, em forma de chuva.
Serviços de abastecimento de água e recolha de águas residuais
É a circulação desta “água doméstica” a função do que designamos geralmente por “serviços públicos de água”. Desde que as pessoas deixaram de viver muito próximo das fontes e dos rios, passaram a precisar desta “prótese” para se ligar à água da natureza. Há uma parte física da prótese, as infra-estruturas, e para ela funcionar é preciso trabalho, materiais e energia, todos os dias, e portanto “serviços”.
A designação de “serviços de água” usa-se geralmente para esta parte artificial do ciclo hidrológico: os serviços de abastecimento de água fazem a ligação no sentido da natureza para as pessoas, e os serviços de águas residuais (esgotos) fazem a “devolução” da água à natureza, depois de usada.
Ora estes “serviços de água” são apenas uma veia de circulação, e não uma entidade separável e fisicamente mais ou menos autónoma, como um hospital ou uma escola. Dependem estritamente da água “da natureza”, ligam as pessoas a um rio ou a um aquífero subterrâneo. Captam água “se houver”, e esta água trás substâncias e organismos resultantes das utilizações e condições naturais anteriores – há sempre muitos factores de risco para a saúde pública, seja qual for o grau de tratamento. Por outro lado, as substâncias incorporadas na água devolvida afectam o utilizador seguinte e modificam o meio receptor ...
Os “serviços de água” só existem como ligação, como fluxo, entre cada indivíduo e a “água da natureza”.
E sublinho sete pontos:
A administração e protecção da “água da natureza”
A ligação de cada ser humano à água é tão essencial que e contínua que o seu controlo por outro representa um domínio senhorial, quase de propriedade de um homem sobre outros homens. E sendo-lhe coarctado o acesso à água – seja por exclusão do sistema de abastecimento, seja por mau funcionamento deste, seja por inviabilização da origem de água – pode perder a saúde e mesmo a vida. Depende também da água indirectamente, pela necessidade de alimentos. E ainda porque a maior parte das actividades produtivas usam a água e são inviáveis sem acesso a ela.
Os “Serviços Públicos” de água, isto é, o trabalho, decisão e organização comum em relação à água transcende muito os serviços de abastecimento e saneamento. Incluem também todas as funções necessárias a garantir o bom estado das origens de água, à protecção de todos e cada um dos efeitos perversos dos usos alheios da água, e dos próprios extremos naturais – isto é, é necessária uma Administração Pública da Água.
Não posso desenvolver aqui estas questões, mas talvez por esta situação de seca que vivemos torne mais fácil lembrar os muitos interesses em conflito na utilização da água. Talvez evidencie como a desresponsabilização do Estado e o desmantelamento da administração pública deixou o País vulnerável, e, mesmo assim, como são necessários e insuficientes os serviços que existem para fazer frente ao período que atravessamos.
A distorção das políticas de desenvolvimento, e particularmente da política da água, em serviço de outros interesses não declarados, tem vindo a inquinar sistematicamente a relação humana com a água. Ao invés de se orientarem para a protecção das pessoas, do sistema de produção, do território e dos ecossistemas, visam satisfazer os apetites de poder e de negócio.
A crise económica actual torna particularmente apetecível a exploração de bens essenciais, especialmente em regime de monopólio, como os serviços de água. O domínio da água, dos rios e dos aquíferos, como recurso produtivo e alimento indispensável representa um poder económico cada vez mais cobiçado. As multinacionais da água tornaram-se poderosíssimas, e os governos neo-liberais continuam a favorecê-las, realizando com estes negócios fundos de maneio rápidos com que vão disfarçando o desmantelamento da estrutura produtiva e do património dos cidadãos, a espoliação dos direitos e a exclusão.
Retrocesso e espoliação de direitos conquistados
Em todo o mundo se travam lutas para reverter ou impedir a privatização dos serviços de água e outras formas de privatização da água, e em defesa da “água de todos”. Não vou referi-las agora, para apresentar apenas os tópicos do que se está a passar em Portugal.
Os “serviços de água”, de competência autárquica, tiveram um desenvolvimento público muito mais longo. Mas após as alterações em 1982 e 1989 à Constituição, três processos de alteração à Lei de Delimitação dos Sectores (1988, 1991 e 1993) e da publicação de “nova” legislação, ressuscitaram no cenário Português os monopólios corporativos das “Companhias das Águas” SA, expandidas agora às áreas de águas residuais, recolha e tratamento de lixos. Tornam-se proprietárias dos investimentos de interesse público feitos com o dinheiro de todos e dos desenvolvimentos alcançados pela gestão pública autárquica.
A criação da figura dos “sistemas multimunicipais”, em 1994, instrumentalizou a espoliação pelo governo das competências autárquicas nos serviços de água, para concessionar a sua exploração a sociedades anónimas e transformar a lógica de serviço público em negócio lucrativo destinado à entrega ao capital privado.
Os “sistemas multimunicipais” consistem essencialmente no controlo da ligação entre as origens de água e as redes, passando essa competência da Autarquia para o Governo e sendo imediatamente concessionada a uma empresa do grupo Águas de Portugal SA. Essa empresa passa a vender à autarquia água tratada, que esta depois redistribui e revende aos munícipes. E semelhante para o esgoto.
O plano estratégico de abastecimento águas e saneamento de águas residuais (PEAASAR) de 2000, a política sequente de pressões sobre as autarquias e a cedência de muitas, concentraram o controlo dos serviços de água à larga maioria da população no grupo Águas de Portugal (AdP), que, sendo de capitais exclusivamente públicos é uma sociedade anónima gerida na lógica de negócio, a ser “engordada” pelo orçamento público para uma privatização cujos obstáculos legais foram já quase totalmente removidos.
Em simultâneo, muitas câmaras optaram pela privatização directa da distribuição e cobrança, em complemento ou não da adesão ao sistema multimunicipal.
As Câmaras resistentes, que recusam tornar a população refém deste negócio, têm sido objecto de toda a espécie de represálias, sobretudo de estrangulamento financeiro, mas não só. E Municípios que se associaram para renovar as infra-estruturas e manter o serviço público e a propriedade dos seus munícipes, têm sido impedidas de apresentar as candidaturas aos fundos de coesão.
Contra a espoliação total da água – um combate inadiável
Mas os interesses de capital no domínio da água prosseguem agora com um golpe ainda mais grave visando a apropriação e concentração nas mãos de grandes grupos económicos transnacionais de toda a “água da natureza” e terrenos associados, o controlo monopolista de todo e qualquer acesso às origens de água, da produção hidroeléctrica, dos portos, das albufeiras, dos rios e dos aquíferos subterrâneos.
Mais uma vez, este processo se inicia por um acto legislativo, agora sob a forma de uma “Lei Quadro da Água” que desde 2002 PS, PSD e CDS têm vindo a esforçar-se por fazer aprovar.
Dão como falso pretexto de transposição de uma directiva europeia, a Directiva Quadro da Água, que nada tem a ver com mercantilização da água, mas com a protecção da qualidade da água e dos aquíferos, e não interfere, nem pode, na propriedade regime de bens e transacção do domínio público hídrico, que é o objecto da lei que pretendem impor aos portugueses.
Esse projecto de Lei, muito longo, tem como principal objectivo entregar a corporações para exploração comercial a água da natureza, as origens de água. Por exemplo, privatiza a água, as margens e ilhas das grandes barragens, através da concessão de empreendimentos de fins múltiplos. Isto é, se essa lei entrasse em vigor, uma empresa podia ser senhora e dona não só de toda a água que está no Alqueva, como de todas as albufeiras do Alentejo que se projecta interligar a ela – abastecimento público, associações de beneficiários, todo e qualquer utilizador da praia, de uma ilha, pescador ou barqueiro dependeriam dessa empresa.
Para além disso, o projecto estipula que a utilização e degradação da água seja comercializada.
A espoliação completa da água, dos serviços de abastecimento e da própria água bruta, das praias e dos portos, dos aquíferos e das barragens, pende agora como um machado suspenso sobre as nossas cabeças.
O novo governo tem nas mãos dois negócios fabulosos, e tem maioria absoluta na Assembleia.
É preciso impedir a aprovação dessa lei, e defender a alternativa. É o mais urgente.
É preciso apoiar as Câmaras que ainda resistem à privatização, também é muito urgente.
E depois é preciso reverter o processo de privatização dos serviços de água, enquanto o capital ainda é público, e não há tanto tempo.
Talvez a seca tenha tornado as pessoas mais sensíveis a estas questões, talvez se dessem conta ...
Porque esta luta não é apenas muito importante ... é vital, e no sentido estrito da palavra, porque a água é essencial e insubstituível à vida.